Exposicões — exhibitions

“DO LUGAR ONDE OS HOMENS NÃO PARAM”

 Porto, galeria Painel – ISPUP, 23 de Abril a 13 de Maio, 2014

 

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Do cigarro à beata contaram-se muitas histórias. Nas suas cinzas, perdura o tempo que se ardeu e o espaço que lhes restou.

Do lugar onde os homens não param…

Talvez, fizesse mais sentido que esta exposição se chamasse ‘Do lugar onde os homens ‘quase’ não param’. O quase está precisamente nas transferências do tempo e do espaço. O quase não é início nem é fim, não é aqui nem é ali. O quase é transição, é duração sem escape. Ora, tanto Marco Fidalgo como Pedro Huet imprimem no quase a possibilidade de fuga, a possibilidade de fugir do durante sem assaltar o tempo, de estar no lugar sem lhe roubar o espaço.
O lugar é um osso impossível de descarnar. Ele próprio se inunda por essa tentativa de separação. O isolamento do osso e da carne é um ideal, uma alucinação de quem não quer abandonar o presente eterno. Haverá sempre uma pista que nos arrancará do vazio de um caminho. A perda de direcção nunca está desamparada. O regresso e o continuum mentais embalam os nossos passos num lugar que acreditamos ser desprovido de referências espaço-temporais.
Por vezes, a nossa localização no mundo abandona o espírito e encarna no corpo. Quando vôo de Lisboa para Maputo, ou vice-versa, o meu corpo reconhece o Deserto do Saara pela turbulência que se faz sentir no avião. Após várias viagens do mesmo trajecto, ele memorizou o tempo e a sensação do Saara. Não é uma turbulência qualquer. É aquela turbulência, com aquela duração. Este mecanismo é falível, claro. Como posso afirmar que estou a sobrevoar o Saara sem ter a certeza do olhar, sem ter pisado a sua areia? Na verdade, nunca vi o Saara, nem nunca lá pisei. Estou situada numa representação imaterial, e paradoxalmente física, daquele deserto.
Acerca da representatividade do lugar, Marc Augé referiu: Trata-se, com efeito, de saber o que aqueles com quem falamos e que vemos nos dizem daqueles com quem não falamos e que não vemos.
Ora, mesmo de olhos vendados, é possível ter uma representação válida dos momentos, dos lugares, dos humanos. Não estaria eu a 9000 quilómetros da Galeria Painel, escrevendo sobre os percursos cristalizados de Pedro Huet e a reencarnação dos lugares de Marco Fidalgo, num diálogo que não cheguei a visitar com os olhos.

Mariana Carrilho

 

 

 

“PERTO DA ESTRADA”

Braga, espaço CO-OP, 15 fev a 1 de março 2014

 

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A ocasião reúne obras de parte do meu trabalho que surgindo de forma isolada ou não, espontaneamente como ideia de um desenho ou de um processo em escultura, não pertencendo ainda a qualquer formato “em série”, parecem-me, neste momento, solicitar serem reunidas.
São trabalhos que na sua origem procuram, de uma forma ou de outra estabelecer relações com o espaço (depois surgem outros géneros de associações), e por isto partilham de um denominador em comum.

 

Curiosamente, o que me é mais agradável, numa boa discussão entre amigos, surge naturalmente e quase sempre do que é “contextualmente comum”. Chamam-lhe “a fonte comum”.
É desta fonte que brota a água que corre sobre estes trabalhos. Esta fonte existe, está perto da estada.

 

Convidamos ainda um amigo a juntar-se e o diálogo será melhor, assim temos Fernando Almeida.

 

Para ajudar à partilha, e referindo-me agora á “da palavra” deixo-vos com um excerto em dois pequenos parágrafos de um poeta destas bandas bem conhecido.
Obrigado.

 

(…) Ah, compreendo! O patrão Vasques é a Vida. A Vida, monótona e necessária, mandante e desconhecida. Este homem banal representa a banalidade da Vida. Ele é tudo para mim, por fora, porque a Vida é tudo para mim por fora.
E, se o escritório da Rua dos Douradores representa para mim a vida, este meu segundo andar, onde moro, na mesma rua dos Douradores, representa para mim a Arte. Sim, a arte, que mora na mesma rua que a Vida, porém num lugar diferente, a Arte que alivia da vida sem aliviar de viver, que é tão monótona como a mesma vida, mas só em lugar diferente. Sim, esta Rua dos Douradores compreende para mim todo o sentido das coisas, a solução de todos os enigmas, salvo o existirem enigmas, que é o que não pode ter solução. (…)

Citação: Soares, Bernardo; Livro do Desassossego, ed. Richard Zenith; obras de Fernando Pessoa, Assírio & Alvim.